
A República nasceu sob o lema da ordem e do progresso. Em menos de trinta anos, o mesmo Estado que se apresentava como moderno enviou o Exército para destruir duas grandes concentrações de brasileiros pobres: o arraial de Belo Monte, em Canudos (Bahia, 1896–1897), e os redutos do Contestado, na faixa disputada entre Paraná e Santa Catarina (1912–1916). Uma entrou no cânone escolar pela pena de Euclides da Cunha. A outra durou cerca de quatro anos — bem mais que Canudos — e ainda assim sobrevive como nota de rodapé. Este texto reúne o que a pesquisa histórica permite afirmar com cuidado, e o que o senso comum costuma distorcer.
O clima da República jovem
Entre 1888 e 1889, o Brasil atravessa a abolição da escravidão e a proclamação da República. No sertão, as secas periódicas, a precariedade e o coronelismo organizam a vida cotidiana. No litoral, elites positivistas temem monarquistas, “desordem” e qualquer mobilização popular que escape ao controle das oligarquias. É nesse ambiente que floresce a figura de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro: peregrino austero, pregador de uma moral de abstinência e caridade, que durante anos repara igrejas e reúne fiéis no Nordeste.
Por volta de 1893, ele se fixa no interior da Bahia, em um sítio conhecido como Canudos, junto ao rio Vaza-Barris, e rebatiza o lugar de Belo Monte. A comunidade cresce depressa. Estimativas da época e da historiografia falam em dezenas de milhares de pessoas no auge do conflito — números que devem ser lidos como ordem de grandeza, não como censo preciso. Havia famílias inteiras, negros libertos, caboclos, vaqueiros, mercadores. Havia comércio e contato com vilas vizinhas. Belo Monte não era um enclave hermético: era uma cidade de barro e fé, com regras próprias e uma promessa de proteção num mundo instável.
Por que o Estado atacou Canudos
Para os fazendeiros da região, o problema era concreto: a mão de obra desertava para o arraial. A imprensa e a política leram o fenômeno como fanatismo e, muitas vezes, como conspiração monárquica. Pesquisas posteriores — em especial o trabalho de Robert Levine e revisões críticas de Os Sertões — mostram motivações mais complexas: terra, proteção, seca, fé, e uma racionalidade de sobrevivência que o litoral preferiu chamar de loucura.
Entre novembro de 1896 e outubro de 1897, o poder envia quatro expedições. As primeiras falham. A terceira, sob Moreira César, vira desastre: terreno desconhecido, logística frágil, emboscadas na caatinga; na debandada, armamento moderno fica com os canudenses. Só a quarta, com cerca de dez mil homens e artilharia, cerca e bombardeia o arraial. Conselheiro morre em setembro de 1897 — de disenteria, não em combate de cinema. Em outubro, Belo Monte é tomada; a resistência e as execuções sumárias deixam um saldo de milhares de mortos. As estimativas variam; o consenso é o de uma catástrofe humana.
Um detalhe geográfico viajou para o litoral: os soldados acamparam na colina da Favela. O topônimo — e a planta faveleira — associam-se à origem do nome das favelas do Rio de Janeiro. A cicatriz de Canudos não ficou só no sertão; entrou no vocabulário da capital.
Os Sertões e a memória seletiva
Euclides da Cunha transforma a campanha em Os Sertões (1902): um dos livros fundadores da literatura e do pensamento brasileiro. A obra é genial e, ao mesmo tempo, presa ao racismo científico de sua época. Ler Euclides é obrigatório; repetir Euclides sem filtro é erro. Canudos, graças a ele e a gerações de debate, não sumiu. O Contestado, sim — quase.
O Contestado: terra, trilhos e monge
Entre Paraná e Santa Catarina, uma faixa rica em erva-mate e madeira era disputada nos tribunais e no chão dos coronéis. A construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, pela Brazil Railway Company de Percival Farquhar, veio com concessões de terra ao longo da linha — ordem de grandeza citada de cerca de quinze quilômetros de cada lado. A Southern Brazil Lumber & Colonization Company extrai madeira e reorganiza o território. Posseiros são expulsos; trabalhadores da obra ficam sem emprego quando os trilhos terminam.
Nesse vácuo de direito e de fome, o messianismo encontra a política da terra. Em 1912 emerge o monge José Maria, curandeiro e pregador de uma ordem sagrada hostil à República dos coronéis. Em 22 de outubro de 1912, a Batalha do Irani mata José Maria e o coronel João Gualberto. Os fiéis enterram o monge com tábuas, para facilitar a ressurreição, e esperam o “Exército de São Sebastião”. A guerra não acaba: redutos se multiplicam (Taquaruçu, Caraguatá, Santa Maria e outros). Figuras como Maria Rosa lideram combatentes. O Estado responde com metralhadoras, artilharia e queima de acampamentos. A guerra se arrasta até cerca de agosto de 1916. As estimativas de mortes divergem; o que não diverge é a escala de anos e de violência.
O mesmo método em dois mapas
Canudos e Contestado não são a mesma história copiada. Bahia e Sul têm ecologias, economias e lideranças distintas. O padrão, porém, se repete: comunidades de pobres que organizam espaço, fé e proteção; elites que leem isso como atraso e ameaça; imprensa que simplifica; Exército que “resolve”. Uma guerra vira clássico. A outra vira silêncio. Em ambos os casos, a República escolheu o que a escola iria lembrar.
Andamos ainda sobre essas cicatrizes: no sertão, no Sul, e no nome das favelas. Recuperar Canudos e Contestado juntos não é romantizar a violência nem demonizar a instituição militar em abstrato. É recusar a amnésia seletiva de um país que gosta de progresso no lema e esquece o preço cobrado no chão.
Fontes e referências
- Cunha, Euclides da. Os Sertões. 1902. (Primária/literária; ler com ressalvas de época.)
- Levine, Robert M. Vale of Tears: Revisiting the Canudos Massacre in Northeastern Brazil, 1893–1897. University of California Press, 1992/1995.
- Galvão, Walnice Nogueira. No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais.
- Queiroz, Maurício Vinhas de. Messianismo e conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado (1912–1916).
- Diacon, Todd A. Millenarian Vision, Capitalist Reality: Brazil’s Contestado Rebellion, 1912–1916. Duke University Press, 1991.
- Machado, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado.
- Documentação e museus: Museu da República (Campanha de Canudos); Museu do Contestado (Caçador/SC); debates sobre Brazil Railway Company e concessões de terra.
Nota de método: números de população e mortes são estimativas; motivações religiosas e econômicas se entrelaçam; pessoas sertanejas e caboclas são agentes históricos, não figurantes de um romance de “atraso”.
The Brazilian Republic was born under the motto of order and progress. Within three decades, the same modernizing state sent the Army against two large concentrations of poor Brazilians: the settlement of Belo Monte at Canudos (Bahia, 1896–1897) and the forest redoubts of the Contestado on the Paraná–Santa Catarina borderlands (1912–1916). One entered the school canon through Euclides da Cunha. The other lasted roughly four years—longer than Canudos—and still survives as a footnote. This essay gathers what careful history can claim, and what common sense often distorts.
A young republic under strain
Between 1888 and 1889, Brazil abolishes slavery and proclaims the Republic. In the hinterland, drought, precarity, and coronelismo structure daily life. On the coast, positivist elites fear monarchists, “disorder,” and popular mobilizations outside oligarchic control. In that climate appears Antônio Conselheiro, an austere pilgrim who gathers followers across the Northeast and, around 1893, founds Belo Monte at Canudos on the Vaza-Barris. Estimates speak of tens of thousands at the peak of the war—orders of magnitude, not a census. The community mixed freed Black people, caboclos, cowhands, merchants, and families; it traded with neighboring towns. It was a city of clay and faith, not a sealed cult.
Why the state attacked
Planters lost labor to the settlement. Press and politics framed fanaticism and monarchist conspiracy. Later research (Levine and critical rereadings of Os Sertões) stresses land, protection, drought, and faith. Four military expeditions (1896–1897) end in the fourth’s siege with heavy artillery; Conselheiro dies of dysentery before the final fall. The toponym Favela travels from the hill where troops camped to Rio’s hillsides. Euclides’s 1902 masterpiece is essential—and bound to the scientific racism of its age.
Contestado: rails, timber, and a monk
On the Paraná–Santa Catarina border, mate and timber land, court disputes, and the São Paulo–Rio Grande railway (Brazil Railway / Percival Farquhar, plus the Lumber company) reorganize space with large strip concessions. Dispossessed squatters and unemployed railway workers meet messianic leadership under José Maria. The Battle of Irani (22 October 1912) kills him; the war continues through redoubts and leaders such as Maria Rosa until about August 1916. Death estimates diverge; the multi-year scale of violence does not.
The same method on two maps
Different ecologies, same pattern: poor communities organizing space and protection; elites calling it backwardness; the Army “solving” it. One war becomes a classic; the other, silence. Brazil still walks those scars—in the sertão, in the South, and in the word favela.


