Brasil em Traços
história do brasilrevolta da armadario de janeirofloriano peixotoflorianópolis

O Dia em que a Marinha Bombardeou o Rio de Janeiro

Na noite de 6 de setembro de 1893, os encouraçados da Marinha do Brasil apontaram seus canhões contra o Rio de Janeiro. Entenda a Segunda Revolta da Armada, a resistência de Floriano Peixoto e os trágicos eventos que levaram ao rebatizamento de Desterro para Florianópolis.

Na noite fria de 6 de setembro de 1893, os moradores da cidade do Rio de Janeiro acordaram em pavor com um som que parecia o fim do mundo. Estrondos ensurdecedores ecoavam pelas montanhas da Baía de Guanabara. Projéteis pesados de artilharia cortavam o céu noturno, explodindo contra as fortalezas da costa e os morros da capital do Brasil.

Não era uma invasão estrangeira. Eram os próprios navios de guerra da Marinha do Brasil, que haviam se amotinado contra o governo do presidente da República, o marechal Floriano Peixoto.

Ilustração histórica do encouraçado Aquidabã disparando canhões na Baía de Guanabara em 1893
O encouraçado Aquidabã, nau capitânia da Revolta da Armada, ancorado na Baía de Guanabara durante os duelos de artilharia contra as baterias da capital em 1893. (CC / Arquivo Nacional / Museu Naval)

O Marechal de Ferro e o Dilema Constitucional

Para entender a explosão dessa revolta, precisamos voltar a novembro de 1891. O primeiro presidente, Marechal Deodoro da Fonseca, renunciou sob pressão da Marinha, e seu vice-presidente, o marechal Floriano Peixoto, assumiu a Presidência.

O artigo 42 da Constituição de 1891 estabelecia que, se o presidente renunciasse antes de completar dois anos de mandato, novas eleições diretas deveriam ser convocadas. Floriano recusou-se a convocar eleições, argumentando que fora eleito indiretamente pelo Congresso. A elite da Marinha de Guerra, de tradição aristocrática, via o governo militarista de Floriano com profunda desconfiança. Na noite de 6 de setembro de 1893, o almirante Custódio de Melo iniciou o levante armado.

Seis Meses de Guerra Naval na Baía de Guanabara

A bordo do encouraçado Aquidabã, os rebeldes ocuparam a Ilha das Cobras, a Ilha das Enxadas e Villegagnon. Floriano instalou canhões de longo alcance nos morros do Castelo e no Forte de Santa Cruz. Formou-se um impasse: a Marinha controlava as águas, mas não tinha tropas para desembarcar; o Exército controlava a terra, mas não tinha navios de guerra.

Em dezembro de 1893, o almirante Saldanha da Gama assumiu o comando no Rio de Janeiro. A capital enfrentou desabastecimento, incêndios no porto e duelos diários de artilharia. Floriano enviou agentes aos EUA e Europa para comprar às pressas uma nova frota de guerra — a famosa "Esquadra Flint".

A Conexão com o Sul e a Memória de Desterro (Florianópolis)

Em 1894, Custódio de Melo navegou com o Aquidabã para o Sul do Brasil, unindo forças com os insurgentes da Revolução Federalista em Santa Catarina. A ilha de Santa Catarina, cuja capital era a histórica cidade de Nossa Senhora do Desterro, tornou-se a sede provisória do governo revolucionário.

Em abril de 1894, as forças legalistas fiéis a Floriano ocuparam Desterro. Na Fortaleza de Anhatomirim, ocorriam execuções sumárias de oficiais e líderes políticos locais. Em outubro de 1894, sob pressão do governo central, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou a alteração do nome da antiga capital para Florianópolis ("Cidade de Floriano").

Essa mudança de nome permanece como um tema de profunda reflexão na memória catarinense, simbolizando as dores da consolidação da República e a importância de preservar a memória histórica com neutralidade, respeito e reconciliação.