Foi esta a notícia que chegou ao Rio de Janeiro: numa madrugada de novembro de 1905, em Itajaí, marinheiros de um navio de guerra alemão tinham desembarcado e levado um homem preso. O episódio conta o que essa notícia dizia e o que os inquéritos depois sustentaram.
A notícia que chegou ao Rio
Quem a contou adiante foi o próprio chanceler, o Barão do Rio Branco, num telegrama ao embaixador Joaquim Nabuco, em Washington, em 9 de dezembro de 1905. Segundo o telegrama, marinheiros da canhoneira Panther, dirigidos por oficiais à paisana, tinham obrigado o dono do Hotel do Comércio a entregar um jovem alemão, fugido do serviço militar, e o levado preso para bordo. E o telegrama acrescentava: “É o que resulta do inquérito”. Foi com essa versão que o Brasil entrou na crise.
O jovem alemão se chamava Fritz Steinhauf. A pergunta que tomou conta do governo e dos jornais era uma só: ele está a bordo da Panther?
A canhoneira Panther
A Panther não era o cruzador que os jornais anunciavam. Era uma canhoneira pequena, de casco branco e duas chaminés, em viagem pelos portos do Brasil. Em janeiro de 1903, a mesma canhoneira trocou tiros com o Forte San Carlos, na Venezuela, e teve de se retirar. Em 1911, menos de seis anos depois do episódio de Itajaí, esse mesmo navio faria a Europa prender a respiração em Agadir.
O marinheiro atrasado
Em novembro de 1905, a Panther estava ancorada em Itajaí, um pequeno porto de rio. Um marinheiro chamado Hasmann não voltou para bordo no prazo da licença. Para os alemães, Hasmann era um marinheiro atrasado, suspeito de deserção.
Havia um caminho legal, e ele chegou a ser tentado. O consulado pediu ajuda à polícia, e, às duas da tarde do dia 26, o próprio comandante telegrafou para Brusque: a polícia está informada.
A noite nas duas casas
Mas a procura não ficou com a polícia. Desde a tarde, havia homens da Panther em terra, de licença: oficiais em roupas civis, e sargentos e marinheiros de uniforme. Ainda à tarde, segundo os inquéritos, um sargento viu Hasmann ao lado de Steinhauf; o marinheiro fugiu para o mato, e o sargento deu bordoadas em Steinhauf.
Nenhum daqueles homens tinha poder de polícia em terra brasileira. Depois que escureceu, a procura virou uma batida em duas casas da cidade. A primeira foi o Hotel do Comércio, de Gabriel Heil, onde Steinhauf estava. Pelos depoimentos, os homens passaram por lá por volta das nove da noite e voltaram por volta das duas da manhã. O dono do hotel contou depois que eles exigiram Steinhauf e que, quando ele protestou, responderam que tivesse paciência: queriam levá-lo.
Uns seis homens de uniforme, sob as ordens de um oficial, fizeram Steinhauf sair do hotel com eles. Dali seguiram para uma segunda casa, que foi cercada. Segundo os documentos do Itamaraty, os homens da Panther ficaram em terra até as três e meia da manhã. No dia 27, a Panther deixou Itajaí, rumo a Florianópolis e, depois, ao Rio Grande.
Rio Branco e a ameaça
As primeiras notícias saíram de Florianópolis, telegrafadas por um jovem correspondente; Rio Branco diria depois que vinham exageradas e cheias de confusões. Na manhã de 9 de dezembro, em Petrópolis, ele recebeu o ministro alemão, Treutler. Pelo relato que o próprio Rio Branco publicaria depois, sem assinatura, disse que o Brasil, pela sua inferioridade militar, não estava em condições de intimidar a Alemanha. Mas, falando como amigo, fez a ameaça: se Steinhauf estivesse a bordo, e a entrega fosse recusada, os navios brasileiros teriam ordem de capturar a Panther e tirar o preso de lá.
No telegrama a Nabuco, no mesmo dia, foi mais longe: se o Brasil não fosse atendido, usaria a força para libertar o preso, ou “meteremos a pique a Panther. Depois, aconteça o que acontecer”. Era uma ameaça, e com condições. Nenhuma fonte mostra que uma ordem de afundar o navio tenha sido dada. No mesmo dia, uma divisão naval brasileira saiu para o sul, oficialmente em manobras já anunciadas, e no dia seguinte a reclamação formal do Brasil foi apresentada em Berlim.
O que os inquéritos sustentaram
Os inquéritos chegaram ao Rio nos dias 17 e 20 de dezembro. Neles, nenhum depoente fala em desembarque de força à noite, nem em homens armados. Pela leitura que o Itamaraty fez dos depoimentos, ninguém dizia ter visto Steinhauf ser levado para bordo. Que ele saiu do hotel com os homens da Panther, os inquéritos confirmam. Que tenha subido no navio, não.
Hasmann, o marinheiro que começou tudo, voltou para bordo sem ter sido capturado no dia 27, pouco antes de a Panther partir. Segundo o Itamaraty, chegou num carro de cavalos com um brasileiro, que o acompanhou até o navio e recebeu os vinte mil-réis prometidos pelo comandante. O Rio de Janeiro afirmou ainda ter notícia de um cartão com o nome de Steinhauf, datado do Desterro em 1º de dezembro; esse cartão nunca foi conferido de forma independente.
As notas e o fim da crise
Do lado alemão, veio primeiro uma declaração por escrito, feita por ordem do governo alemão: Steinhauf não estava, e nunca estivera, a bordo. Ninguém no Brasil pôde conferir. Em 31 de dezembro, a nota brasileira deixou cair o desembarque armado e ficou com o que se podia provar: operações de polícia, feitas à noite pela tripulação de um navio estrangeiro, desrespeitando a soberania do Brasil.
Em 2 de janeiro de 1906, veio a nota alemã, aprovada pelo imperador: não houvera intenção de ofender o Brasil, mas os homens tinham passado dos limites das ordens recebidas e iriam à justiça militar. O governo alemão exprimia o seu “vivo pesar”. Nenhum tiro foi disparado. Rio Branco aceitou a resposta, e a crise foi dada por encerrada em 6 de janeiro de 1906.
E Steinhauf?
O destino dele continua em disputa. A polícia brasileira nunca o encontrou, e não havia dele nem uma fotografia. Há quem diga que reapareceu em Buenos Aires. Ninguém provou. Em Itajaí, não houve canhão. Houve homens de um navio estrangeiro decidindo, de madrugada, quem saía de uma casa brasileira.
Fontes
- Fundação Alexandre de Gusmão, Cadernos do CHDD, ano I, n. 1, 2002 (artigos de Rio Branco em A Notícia, janeiro de 1906).
- Viviani Poyer, “Fronteiras da diplomacia: os casos Panther e Kullak”, Anais História em Debate (UFFS), 2021 (nota de 31/12/1905, AHI-930.2(42)(81)).
- Revista Brasileira (ABL) n. 64, p. 154 (telegrama de Rio Branco a Nabuco, 9/12/1905).
- Renato Amado Peixoto, “‘Depois aconteça o que acontecer’”, Revista Brasileira de Política Internacional 54(1), 2011.
- CPDOC/FGV, verbete “Questão Panther”.
Brasil em Traços. Este artigo segue o roteiro e as notas de fonte do episódio. Não afirma que Steinhauf esteve a bordo, que houve homens armados nem que alguma ordem de afundar ou capturar a Panther foi dada.
Assistir no YouTube: O Caso Panther: quando Rio Branco ameaçou afundar um navio de guerra alemão

